A indústria automotiva tem incorporado práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) à sua estratégia de negócios, com iniciativas que envolvem desde a gestão de recursos naturais até o desenvolvimento de pessoas e o fortalecimento da governança corporativa. Em Manaus, a Visteon vem estruturando essa agenda desde 2021, com projetos voltados à sustentabilidade, à diversidade e à capacitação profissional.
Empresa global de tecnologia para o setor de mobilidade, a Visteon mantém duas unidades no Brasil: uma fábrica no Polo Industrial de Manaus e um escritório em São Paulo, que concentra áreas como engenharia, comercial e recursos humanos. Presente na capital amazonense desde 1980, a unidade produz sistemas eletrônicos automotivos, incluindo painéis digitais e sistemas de infoentretenimento, e conta com aproximadamente 450 colaboradores.
Globalmente, a companhia registra cerca de US$ 3,8 bilhões em vendas anuais, reúne aproximadamente 10 mil colaboradores e possui 13 unidades fabris, presença em 17 países e cerca de 28 centros técnicos.
Em entrevista à Rede ESG, Silvana Aquino, gerente de Recursos Humanos e ESG da unidade de Manaus e correspondente de RH da operação de São Paulo, explica como a empresa estruturou sua jornada ESG, incorporou indicadores e mecanismos de acompanhamento e desenvolveu iniciativas com impacto dentro e fora da organização.
A executiva também apresenta projetos implementados na unidade amazonense, como o Visteens, voltado à capacitação de jovens, e o Jornada da Mulher, além de compartilhar metas ambientais e orientações para empresas de menor porte que desejam iniciar sua jornada de sustentabilidade. Confira a entrevista.
Rede ESG: Como o ESG está presente na rotina da Visteon?
Silvana Aquino: Vou comentar um pouco sobre a nossa rotina na Visteon Amazonas e sobre essa jornada, que começou no final de 2021, quando passamos a nos deparar mais com a temática dos três pilares do ESG. Começamos com treinamentos para toda a liderança, primeiro com a sensibilização sobre o que é ESG, e depois estendemos esse trabalho aos demais colaboradores.
A partir daí, iniciamos algumas atividades na unidade relacionadas aos três pilares: ambiental, social e governança. Entre elas, o programa de Diversidade, Equidade e Inclusão, o programa Jornada da Mulher, o programa Visteens, de capacitação de jovens, o Fórum Empresas com Refugiados, o programa de saúde mental e bem-estar e a Academia de Liderança.
Rede ESG: As práticas ESG foram estruturadas a partir de processos que já existiam na empresa ou também exigiram a criação de novas iniciativas?
Silvana Aquino: Eu já estava aqui desde o início, então posso dizer que as iiniciativas ESG foram integradas à estratégia e à cultura da empresa, à nossa cultura organizacional. Analisamos tudo o que já tínhamos sob o olhar dos três pilares do ESG. Fomos delimitando e definindo quais ações eram sociais, quais eram ambientais e quais estavam relacionadas à governança.
Primeiro, fizemos esse mapeamento interno. Hoje, falar de sustentabilidade já faz parte do nosso DNA corporativo, pois esse conceito já vinha da nossa organização. Na unidade de Manaus, tivemos de estruturar o comitê ESG, os indicadores, as auditorias, os processos de governança, os programas de desenvolvimento humano e o monitoramento dos resultados.
Muitas ações foram incorporadas à evolução dos processos que já existiam na empresa, como os de qualidade, recursos humanos, compliance e relacionamento com todos os stakeholders. Então, fomos integrando o que já existia e incorporando novas ações.
Rede ESG: Entre os pilares ambiental, social e de governança, algum se destaca na atuação da Visteon ou existe um equilíbrio entre eles?
Silvana Aquino: Eu diria que há um equilíbrio nas nossas ações e na nossa atuação ESG na Visteon Amazonas. Quando falo em equilíbrio, isso está relacionado aos resultados das nossas auditorias ESG, nas quais as notas dos pilares de governança, social e ambiental são muito similares, com médias acima de 80 pontos.
Nossa atuação é bem estruturada nos três pilares, mas posso destacar nossas ações sociais, incluindo os programas de desenvolvimento humano, diversidade e engajamento comunitário e dos colaboradores. A parte de governança também é muito forte, com os programas de compliance, auditorias, gestão de riscos e segurança da informação, assim como nossas ações ambientais.
Acabamos de lançar um programa, o projeto Green Water, no qual captamos a água da chuva e a reutilizamos em diversos processos internos, como na irrigação das plantas.
Rede ESG: Alguma iniciativa desenvolvida na unidade de Manaus se tornou referência e foi levada para outras unidades da Visteon?
Silvana Aquino: Posso destacar o programa Visteens, uma iniciativa da unidade de Manaus voltada para jovens entre 14 e 18 anos. Esse programa já foi replicado na nossa unidade de Portugal, na planta de Palmela, e também em unidades da China.
Outro exemplo que podemos citar é o Jornada da Mulher, uma iniciativa voltada ao desenvolvimento, à capacitação e ao fortalecimento da participação feminina na indústria. Esse programa também se consolidou como uma referência interna e na comunidade local, inspirando a criação de ações semelhantes voltadas ao público feminino em outras unidades da Visteon pelo mundo.

Rede ESG: Como a Visteon trabalha a gestão e a destinação dos resíduos gerados em suas operações?
Silvana Aquino: A Visteon possui metas de sustentabilidade voltadas à redução dos impactos ambientais em todas as suas operações. Essa é uma meta que já vem do nosso corporativo. Atualmente, temos como objetivos reduzir em 5% a geração de resíduos e em 6% o consumo de energia e água, considerando a receita da operação local.
Em relação à destinação dos resíduos, nossa prioridade é sempre a reciclagem. Buscamos primeiro essa alternativa. Para os materiais que não possuem viabilidade técnica ou econômica para reciclagem, adotamos alternativas como o coprocessamento ou a recuperação energética, garantindo uma destinação ambientalmente adequada desses resíduos e alinhada aos princípios da economia circular.
Quanto à logística reversa, a Visteon não realiza esse processo diretamente, porque seus produtos são fornecidos às montadoras, e não ao consumidor final.
Rede ESG: Como os colaboradores são orientados e envolvidos nas práticas de sustentabilidade e ESG da empresa?
Silvana Aquino: Primeiro, trabalhamos com o engajamento dos colaboradores e também da comunidade. Desde o início da nossa jornada, quando decidimos buscar a certificação ESG, desenvolvemos a liderança para que entendesse o que é ESG, seus pilares e o impacto dessas práticas tanto para o nosso negócio quanto para a comunidade. Fizemos a mesma coisa com os colaboradores.
Então, começou ali um trabalho de desenvolvimento das nossas pessoas. Outros programas vieram junto com essa jornada e com esse ambiente que criamos, favorável à criatividade e ao pensamento voltado para a sustentabilidade.
Fomos agregando outros programas, certificações, auditorias e avaliações, como a certificação Great Place to Work (GPTW), que trouxemos para dentro da organização. Fizemos a primeira avaliação e hoje estamos na quinta, com uma nota de 85% de satisfação e engajamento dos colaboradores.
Também temos programas como a Academia de Liderança e iniciativas de saúde mental, incluindo uma clínica de psicologia dentro da nossa empresa. Além disso, avaliamos a saúde mental dos colaboradores por meio da pesquisa Great People Mental Health.
Temos uma série de programas voltados à motivação, à satisfação e ao engajamento dos colaboradores, bem como ações desenvolvidas com a própria comunidade.
Rede ESG: Quais metas a Visteon estabelece e como a organização acompanha os resultados das ações relacionadas ao ESG?
Silvana Aquino: Temos algumas metas globais, como reduzir em 5% a geração de resíduos e em 6% tanto o consumo de água quanto o de energia elétrica.
Uma das metas do nosso corporativo, com prazo até 2033, é que toda a nossa operação utilize energia limpa. Essa meta já foi alcançada em 2023 na unidade Visteon Amazonas, embora o prazo estabelecido pelo corporativo seja 2033.
Também temos metas de redução e controle das emissões de carbono. Além do acompanhamento global, estamos trabalhando na avaliação local. A partir deste ano, 2026, estamos realizando uma avaliação das emissões de carbono por meio de uma empresa independente.
Temos ainda uma série de certificações que validam nossa atuação, como a GPTW, na qual alcançamos 85% de satisfação dos colaboradores, e ações para ampliar a participação feminina na empresa.
Atualmente, temos uma média de 52% de mulheres no nosso quadro de colaboradores e aproximadamente 40% de participação feminina nos cargos de liderança.
Rede ESG: Para empresas de menor porte que desejam começar a trabalhar com ESG, quais seriam os primeiros passos?
Silvana Aquino: Uma dica essencial é mostrar às organizações que o ESG não precisa começar com grandes investimentos. Essa é uma dúvida e uma preocupação da maioria das empresas que pensam em investir em ESG ou trabalhar com seus pilares, pois acreditam que é necessário investir muito.
Nossa orientação é que não precisa começar com grandes investimentos. O primeiro passo é compreender os impactos da empresa sobre seus colaboradores, a comunidade, o meio ambiente e a cadeia de fornecedores. É importante fazer um mapeamento desses impactos sobre os stakeholders.
A partir daí, é importante estruturar metas claras, garantir a conformidade legal, fortalecer a governança e ouvir todas essas partes interessadas para desenvolver ações que atendam às suas necessidades e, de fato, gerem valor para as pessoas, tanto dentro da empresa quanto na comunidade onde ela está inserida.
Na nossa experiência, iniciativas relacionadas à ética, programas voltados às pessoas, diversidade, capacitação e desenvolvimento dos colaboradores, relacionamento com a comunidade e com instituições, como o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) e a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), são excelentes pontos de partida para uma organização que busca uma certificação ou deseja atender aos pilares ESG.
A empresa pode identificar o que já desenvolve e traçar metas para aprimorar essas ações, sempre ouvindo e envolvendo seus stakeholders.
Entrevista e texto: Illana Campos| Rede ESG
