Bióloga de formação, com especialização em Educação Ambiental e Gestão Ambiental, Carmem Hellena Langbeck atua desde 2023 na Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Município de Manaus (Ageman), onde coordena as ações de ESG — sigla em inglês que reúne os pilares ambiental, social e de governança. O órgão fiscaliza serviços públicos delegados a empresas privadas na cidade, como saneamento (Águas de Manaus), iluminação pública (Manaus Luz) e estacionamento rotativo Zona Azul (Consórcio Amazônia).
Ao chegar à agência, Carmem recebeu a missão de contribuir para a melhoria das relações interpessoais no ambiente de trabalho. Uma das estratégias foi envolver os servidores em atividades de educação ambiental. O que começou com ações pontuais em datas do calendário ambiental ganhou forma de programa e, posteriormente, passou a ser reconhecido como parte de uma jornada ESG. Hoje, a agência mantém campanhas permanentes de coleta de pilhas, tampinhas de garrafa e óleo de cozinha usado, além de uma máquina de reciclagem com sistema de cashback na recepção. Na governança, o trabalho abrange tanto a gestão do órgão quanto a qualidade regulatória.
Em 2026, a Ageman avançou na organização dessas iniciativas. Por meio de um Acordo de Cooperação Técnica com a Inajá Estratégia Integrada Empresarial (Escola do ESG), recebeu um diagnóstico de maturidade ESG, acompanhado de recomendações e de um plano de ação. A avaliação atribuiu à agência nota 1,8 em uma escala de 1 a 5, estabelecendo uma referência inicial para orientar os próximos passos.
Nesta entrevista, Hellena Langbeck conta como o trabalho começou, quais desafios permanecem e por que considera a agência um laboratório para práticas que podem ser adotadas em outros órgãos públicos.
Rede ESG: Como começou o ESG na Ageman?
Hellena Langbeck: Na verdade, nós não pensamos nisso. Eu cheguei aqui em dezembro de 2023 com uma missão não muito confortável: fazer ajustes com a equipe para melhorar o ambiente das relações interpessoais. Quando você recebe algo assim, precisa criar estratégias para gerar colaboração. Sou bióloga e, em sala de aula, a estratégia para todos participarem são atividades diversificadas. Então o trabalho começou com ações pontuais de educação ambiental, para envolvermos os servidores, sem a gente nem pensar em ESG.

A primeira ação foi no Dia Mundial da Água de 2024. Eu tinha observado que a agência usava copo descartável e perguntei ao presidente da Ageman se seria viável trocar por caneca. Todos os servidores ganharam a sua e fizemos um lanche de confraternização, que serviu também de reflexão sobre o uso do recurso público. Depois vieram a Semana do Meio Ambiente e o Dia da Árvore, caixas de separação de resíduos em cada setor e fragmentadoras de papel. Hoje, todo o papel da agência é encaminhado para reciclagem.
Rede ESG: Quando vocês passaram a reconhecer essas iniciativas como parte de um programa ESG?
Hellena Langbeck: Em janeiro deste ano, nossa assessora de comunicação conversou com uma pessoa externa e viu ali uma oportunidade. Quando ela chegou, nós já tínhamos a estrutura de um programa ESG encaminhada. Antes disso não existia esse olhar para as questões internas. Foi preciso um olhar externo para perceber que faltavam só alguns ajustes. Eu costumo dizer que a gente mirou no que viu e acertou o que não viu.
As concessionárias que fiscalizamos tiveram representantes entrevistados. Elas já são empresas de grande porte, com certificações ISO e programas de responsabilidade social e ambiental. Na agência reguladora, porém, não tínhamos nada definido.
Rede ESG: Como surgiu a máquina que recebe os itens para reciclagem e como funciona o descarte hoje?
Hellena Langbeck: Conheci a máquina em 2024, num curso no Tribunal de Contas do Estado, que tem uma na recepção. Voltei, pedi uma reunião com o presidente, expliquei o princípio e ele me deu carta branca. O equipamento, de uma parceria com a Ambipar e com a tecnologia da Triciclo, chegou em dezembro de 2025. Ele recebe vidro, plástico em duas modalidades, caixa longa vida, aço e alumínio. Quem deposita recebe cashback. Pode ser Pix, crédito ou iFood, ou você pode fazer uma doação direta para uma instituição credenciada.
O que não cabe na máquina, como papelão, papel e alguns plásticos, é recolhido por uma empresa que presta serviço à prefeitura. E aí está um dos nossos gargalos: não temos retorno de quantidade e volume ainda. A máquina nos envia um relatório mensal completo. Mas ainda precisamos dos dados finais externos. O diagnóstico do nosso plano de ação apontou isso, porque separar o resíduo exige garantir a logística reversa.
Rede ESG: Além da máquina, quais ações já fazem parte da rotina da Ageman?
Hellena Langbeck: Temos três campanhas permanentes, abertas também ao público externo: pilhas e baterias, tampinhas de garrafa e óleo de cozinha usado. As pilhas, quando enchem o galão, vão para uma empresa parceira de descarte correto, que faz a logística reversa. As tampinhas são entregues a cada três meses à Fundação Rádio Rio Mar, que apoia o Lar das Marias, casa de mulheres em situação de vulnerabilidade. O óleo é recebido com agendamento, por causa do horário do prédio público. As redes sociais nos ajudam muito na divulgação.
Rede ESG: Houve resistência dos servidores?
Hellena Langbeck: Eu não diria resistência, diria uma dificuldade inicial. Imagine fazer a mesma coisa por 30, 40 anos e, de repente, alguém dizer “vamos fazer diferente”. Por isso nada foi imposto. Usei pequenas estratégias, um chocolate aqui, um bolo ali, um café, para mostrar a importância de cada ação. Respeitamos a individualidade: nem todos usam a máquina, separam as tampinhas ou trazem pilhas. Mas água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Você tem que fazer porque entendeu que é importante, não porque alguém mandou.
Rede ESG: Como a governança entra nesse programa?
Hellena Langbeck: Somos uma agência reguladora, então já tínhamos normas, leis e decretos a cumprir: proteção de dados, compliance, integridade e transparência. Temos um grupo de trabalho dedicado ao tema e cuidamos da equidade de gênero nas contratações e nos cargos de chefia. Existem duas frentes: a governança geral do órgão e a governança e qualidade regulatória, voltada à lisura dos contratos de concessão.
Rede ESG: Quais são os principais desafios daqui para frente?
Hellena Langbeck: Internamente, o maior desafio é dar continuidade. O problema nunca foi começar, todo mundo começa alguma coisa. A missão é chegar a um ponto em que as pessoas façam sem precisar ser lembradas, porque já internalizaram. Aqui pessoas entram e saem, então isso só acontece com convencimento. Ninguém vai inventar a roda, o desafio é manter a roda girando.
Externamente, o desafio é fazer com que esses programas sejam absorvidos em outros lugares. Aqui é o nosso laboratório, e a gente pode errar. Somos uma agência com pouco mais de 60 servidores, e há secretarias com 400 ou 500, então vai precisar de ajustes. Mas se conseguimos fazer aqui, dá para fazer em qualquer outra secretaria.
Dos três pilares, o que mais precisa de atenção é o ambiental. Contratos de energia, água, locação de veículos e combustível não são 100% nossos, dependem de outra pasta. Numa casa, você sabe o que entra e o que sai. Na administração pública, não conseguimos controlar tudo. Mas seguimos buscando alternativas para avançarmos cada vez mais.
Entrevista e texto: Raíssa Marreiros | Rede ESG
