Cultivar plantas dentro de casa e reaproveitar a comida da noite anterior fazem parte da rotina da depiladora Sandra Silva, 53 anos, moradora do bairro Planalto, na zona Centro-Oeste de Manaus. Hábitos simples como esses refletem os princípios básicos do ESG, termo conhecido no meio corporativo, mas que ainda causa estranhamento para muita gente.
Em entrevista, Sandra conta que começou a criar esses hábitos quando comprou um terreno no interior de Autazes, município a 112 quilômetros de Manaus. “Lá eu comecei a ter amor por criar plantas e ter árvores para ganhar os frutos, ter fruta dentro de casa”, conta. Depois de pesquisar sobre o assunto, passou a comprar sementes para plantar também na casa onde mora atualmente, em Manaus, em busca de um ambiente mais arejado, de melhoria térmica.
Para ela, cultivar plantas é mais do que um passatempo. “Você tem um hobby, você está praticando algo e, além disso, você ainda está ajudando o meio ambiente ao mesmo tempo”, diz. Em casa, outro hábito é aproveitar as sobras do jantar para evitar o desperdício de comida. Sandra também guarda a água da máquina de lavar para limpar o pátio e o banheiro.
O termo ESG
ESG vem do inglês Environmental, Social and Governance, em português ambiental, social e governança. O termo surgiu em 2004, em uma publicação do Pacto Global da ONU com o Banco Mundial, voltada ao mercado financeiro. Mesmo sem saber, os hábitos de Sandra dialogam diretamente com o pilar ambiental da sigla, que envolve temas como redução do consumo de água e da geração de resíduos.
Sandra nunca tinha ouvido falar em ESG antes desta entrevista. Ao saber do termo, ela reagiu com surpresa e um certo orgulho: “Nunca tinha ouvido falar desse termo, mas fico feliz em saber que faço parte de algo, que estou ajudando, mesmo que um pouco, o meio ambiente. É o meu jeito e está ao meu alcance. E acredito que isso seja o mais importante.”
Palavra da especialista
O fato de Sandra não saber sobre o conceito se relaciona diretamente com o que diz a especialista em estratégias ESG Mariana Borges. Para ela, o tema precisa deixar de parecer distante da realidade da população brasileira. Em painel do JBr Talks, em agosto de 2025, Mariana destacou que o ESG deve ser tratado como “uma coisa corriqueira”, presente até nas conversas em família. “ESG tem que ser uma coisa que a gente queira falar no dia a dia, que a gente fale no boteco com um amigo, nos almoços em casa com a família, que seja algo natural”.
Nas empresas
O mesmo movimento vem crescendo em maior escala, dentro das empresas. Indústrias e cozinhas corporativas vêm adotando estratégias de aproveitamento integral de alimentos. Companhias de diversos setores têm investido em arborizar seus ambientes de trabalho, replicando em escala institucional o mesmo hábito que Sandra trouxe de Autazes para dentro de casa, em Manaus.
A sede da Natura em São Paulo, por exemplo, inaugurada em 2016 em Cajamar, foi projetada com três objetivos principais: integrar-se ao ambiente externo, aproveitar ao máximo a luz natural, e incentivar a interação social, resultando em uma arquitetura com fachadas de vidro e paisagismo, com jardins em cada pavimento. O edifício garantiu certificação LEED Gold, selo de sustentabilidade concedido pelo Green Building Council Brasil. Além disso, o prédio de seis andares é todo feito de vidro para realçar o verde da mata do entorno e destacar o jardim interno, com teto de vidro que garante iluminação natural e reduz o uso de ar-condicionado.

Em Manaus e dentro de casa, as práticas de Sandra sintetizam o recado: “a necessidade de se estimular a execução de políticas ambientais e sociais do zero, a partir dos lares brasileiros” e “ESG não depende de grandes estruturas ou investimentos para começar. Pequenas atitudes fazem a diferença”, mostrando o caminho que empresas podem seguir em maior escala.
Texto: Raissa Marreiros/ Rede ESG
