Por Elendrea Cavalcante, especialista em ESG e Sustentabilidade Corporativa
No próximo domingo, 4 de outubro, 158.745.463 eleitores e eleitoras poderão comparecer às urnas do Brasil para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Cada candidato a cargo executivo já entregou à Justiça Eleitoral um documento que pouca gente abre: o plano de governo. A entrega é exigida pelo art. 11, § 1°, IX, da Lei n° 9.504/1997, e os planos ficam disponíveis no Sistema DivulgaCandContas, que qualquer cidadão pode acessar. O problema é que a lei exige a entrega, mas não a qualidade. Também não existe formato mínimo. Entre os 13 presidenciáveis deste ano, o plano mais curto tem sete páginas e o mais longo chega a 200.
Quem trabalha com ESG – sigla para ações ambientas, sociais e de governança – conhece bem esse tipo de lacuna. Durante anos, empresas publicaram compromissos ambientais e sociais vagos, como “reduzir impactos” e “valorizar pessoas”, sem número, prazo ou forma de verificação. O mercado respondeu exigindo método. Primeiro vem a linha de base, que é o ponto de partida medido antes de qualquer ação. Depois vêm uma meta quantificada, um prazo, um indicador de acompanhamento e a divulgação periódica dos resultados. O ‘compromisso’ que dispensa esses elementos ganhou até nome: greenwashing, a maquiagem verde. Na política vale a mesma lógica. Promessa que não pode ser medida também não pode ser cobrada.
É daí que nasce a ideia do Cidadão ESG. Ele nem sabe, mas é o eleitor que aplica ao voto o filtro que investidores, conselhos de administração e consumidores passaram a aplicar às empresas. Ele não precisa ser especialista em gestão pública. Basta trocar a pergunta “esse candidato é bom?” por outras, mais úteis: “o que exatamente ele se compromete a entregar, até quando, e como vou saber se entregou?”
A urgência para os cidadãos ganha foco quando se olha para a Agenda 2030 da ONU, que reúne 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas. É o referencial mais usado por empresas para conectar a estratégia ESG ao desenvolvimento dos territórios. Na administração pública, porém, há um detalhe que pouca gente percebe: os governos eleitos agora vão administrar exatamente de 2027 a 2030. O mandato que começa em janeiro coincide com a reta final da Agenda 2030. E o que será alcançado até lá?
O saneamento é o exemplo mais claro de como um número muda a qualidade do debate. O Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020) fixou metas objetivas: 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. O ponto de partida é distante. Cerca de 90 milhões de brasileiros, 43,3% da população, ainda não têm coleta de esgoto, segundo o Instituto Trata Brasil – de acordo com dados divulgados entre fevereiro e março de 2026. Com linha de base, meta e prazo conhecidos, o eleitor não precisa aceitar discursos genéricos sobre “levar saneamento a todos”. Na prática, cinco perguntas bastam para testar qualquer proposta:
1. Qual é o diagnóstico? Qual é o número/percentual de hoje, e de onde ele vem?
2. Qual é a meta? Ela precisa estar em número, não em adjetivo.
3. Qual é o prazo? Essa proposta cabe no mandato ou depende do próximo governo?
4. De onde vem o dinheiro? A proposta precisa de fonte de recurso, não apenas de intenção.
5. Como vou acompanhar? Qual indicador será usado, quem mede e onde o resultado será publicado?
A quarta pergunta tem data para ser respondida. No primeiro ano de mandato, os eleitos enviam ao Legislativo o projeto de lei do Plano Plurianual (PPA), que define programas, metas e recursos para os quatro anos seguintes. É ali que a promessa de campanha vira orçamento, ou desaparece sem que ninguém perceba. Comparar o PPA de 2027 com o plano registrado no TSE é um dos exercícios de cidadania mais reveladores que existem.
Apesar de ser o foco, a responsabilidade não é só do poder público. Empresas com compromissos ESG sérios investem nos territórios onde atuam. Quando alinham esses investimentos a indicadores públicos, como os do saneamento, da educação ou da saúde, ajudam a mostrar se o esforço está funcionando. O momento é propício a parcerias público-privadas. Depois da eleição, o cidadão também tem instrumentos. Pode usar os portais de transparência, participar dos conselhos de políticas públicas e recorrer à Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011), que garante a qualquer pessoa o direito de pedir dados a órgãos públicos sem precisar justificar o pedido.
Nada disso exige escolher lado. Exige método. O Cidadão ESG vota em quem quiser, mas sabe o que cobrar de quem vencer. Se as empresas aprenderam que compromisso sem indicador vira descrédito, a política pode aprender o mesmo, desde que as metas saiam dos planos de governo e dos relatórios corporativos e passem a circular onde a democracia de fato acontece: na boca do povo.
