Para muitos pequenos negócios, adotar práticas ambientais, sociais e de governança ainda parece um desafio distante da realidade financeira e operacional da empresa. Mas iniciativas voltadas a esse público começam a mostrar que ESG também pode ser incorporado à rotina de micro e pequenas empresas — e, em alguns casos, transformar boas práticas em um diferencial de mercado.
É nesse contexto que o Selo ESG Sebrae busca reconhecer empresas que avançam na estruturação de suas práticas de sustentabilidade. A certificação faz parte da Plataforma Crescimento Sustentável, lançada pelo Sebrae em julho de 2025 com o objetivo de apoiar empreendedores na avaliação da maturidade ESG e na identificação de caminhos para melhorar sua gestão.
Desde o lançamento, a plataforma registrou 16.612 empresas participantes, 24.159 atendimentos, 7.547 soluções recomendadas e 53 selos concedidos.
Para Margarete Coelho, diretora de Administração e Finanças do Sebrae Nacional, aproximar o ESG da realidade dos pequenos negócios é também mostrar que sustentabilidade pode estar relacionada à estratégia e à competitividade.
“Queremos que o pequeno negócio consiga transformar suas boas práticas em valor para a empresa e para o mercado.”
Segundo Margarete, a organização das práticas também ajuda o empreendedor a demonstrar sua evolução para o mercado.
“Quando o empreendedor conhece sua maturidade ESG, organiza suas práticas e consegue demonstrar essa evolução, ele fortalece sua reputação e se prepara para dialogar com clientes, parceiros e cadeias de fornecedores que incorporam cada vez mais critérios de sustentabilidade em suas decisões.”
Certificação como diferencial
Um exemplo dessa experiência é a Mimos Para Todos, e-commerce da Baixada Santista especializado em brinquedos educativos e inclusivos. A empresa conquistou o Selo ESG Sebrae na categoria Bronze, em outubro de 2025.
Para a empreendedora Lillian Miyuri Yamauchi, um dos principais efeitos da certificação foi ampliar a visibilidade da empresa diante de negócios de maior porte.
“O maior impacto de ter o selo é essa visibilidade, para grandes empresas do mercado estarem enxergando a gente.”
A empresa passou a divulgar o reconhecimento em suas redes sociais e também utiliza a certificação na aproximação com parceiros e clientes.
“Eu sempre falo sobre o selo ESG para dar uma confiabilidade melhor na empresa. Os clientes que são de maior porte estão chegando até a Mimos por conta dessa divulgação”, afirma Lillian.
Organizar o que já era feito
A experiência da Mimos também mostra um aspecto comum entre pequenos negócios: muitas práticas relacionadas ao ESG podem existir antes mesmo de serem identificadas como parte de uma estratégia de sustentabilidade.
Segundo Lillian, o processo de preenchimento da plataforma ajudou a empresa a reconhecer, organizar e documentar iniciativas que já faziam parte da rotina.
“Na verdade, a gente já praticava ESG sem saber. Quando a gente começou a preencher a plataforma, documentar tudo, é que a gente começou a ter noção da importância do ESG de forma estratégica mesmo.”
Para a empreendedora, o processo também contribuiu para formalizar reuniões e treinamentos e dar maior direcionamento às ações.
“Quando a gente tem que reportar para a plataforma todas as nossas ações, acaba documentando isso de uma forma melhor”, relata.
Sustentabilidade também passa pela operação
Entre as iniciativas ambientais adotadas pela Mimos Para Todos estão a redução do consumo de água e energia e o reaproveitamento de papéis e caixas de papelão.
A empresa também mantém parcerias para reutilizar caixas que seriam descartadas.
“A gente faz parceria com algumas empresas que jogam fora as caixas. Isso reduz o impacto ambiental e o custo.”
A experiência mostra como medidas relativamente simples podem produzir efeitos simultâneos: reduzir impactos ambientais e, ao mesmo tempo, contribuir para a eficiência operacional do negócio.
Impacto social na comunidade
Na dimensão social, a empresa desenvolve o programa A Liga da Bondade, que reúne iniciativas voltadas ao empreendedorismo feminino e à doação de brinquedos.
Um dos projetos é o Empreender para Todas, enquanto o Brincar para Todos direciona brinquedos a crianças em situação de vulnerabilidade.
A empresa também coleta embalagens vazias de desodorante aerossol de alumínio e comercializa o material para financiar parte das ações sociais.
Segundo Lillian, os recursos ajudam a viabilizar doações para crianças em tratamento contra o câncer e brinquedotecas instaladas em delegacias da mulher e abrigos que atendem mulheres em situação de violência doméstica.
A preocupação com inclusão também aparece dentro da própria empresa. A equipe recebe capacitação voltada ao atendimento ao cliente, com foco em comunicação inclusiva e em uma abordagem sem capacitismo.
Pequenos negócios diante de novas exigências
A experiência apresentada pelo Sebrae aponta para uma mudança importante no ambiente empresarial: critérios ambientais, sociais e de governança começam a fazer parte não apenas das grandes corporações, mas também das relações comerciais com pequenos fornecedores.
Nesse cenário, conhecer o próprio nível de maturidade ESG, organizar práticas e conseguir demonstrá-las pode se tornar uma ferramenta de competitividade para micro e pequenas empresas.
O desafio, porém, vai além de conquistar um selo. A certificação pode representar um reconhecimento de uma trajetória, mas o valor da agenda ESG está na capacidade de transformar essas práticas em processos contínuos, resultados mensuráveis e melhoria efetiva da gestão.
Para os pequenos negócios, esse movimento pode significar uma oportunidade de organizar o que já fazem, identificar onde ainda precisam avançar e transformar sustentabilidade em parte da estratégia empresarial.
Fonte: Agência Sebrae de Notícias | Barbara Duffles
